Duque de Caxias: das águas da Guanabara à força de uma cidade gigante
Muito antes das fábricas, rodovias e bairros populosos, havia rios, portos e caminhos. Conheça as muitas camadas de uma cidade construída por encontros, trabalho e resistência.

A cidade que hoje reúne quase um milhão de histórias nasceu da relação entre água e terra, cresceu com os trilhos e as estradas e ganhou força com quem chegou para trabalhar e ficar.
Antes da cidade: águas, caminhos e povos originários
Contar a história de Duque de Caxias exige começar muito antes de seu nome aparecer nos mapas. O território que hoje integra a Baixada Fluminense é uma planície moldada pela água. Rios que descem da Serra do Mar, áreas de mangue e trechos sujeitos a alagamentos criaram uma paisagem de passagem entre o fundo da Baía de Guanabara e o interior. Iguaçu, Meriti, Sarapuí e Estrela não eram apenas acidentes geográficos: por séculos, funcionaram como vias de circulação, fontes de alimento e referências para a ocupação humana. A história local nasceu desse encontro entre serra, planície e baía — uma geografia que oferecia possibilidades, mas também cobrava adaptação constante de quem vivia nela.
Antes da conquista portuguesa, diferentes povos de línguas do tronco tupi ocupavam a região da Guanabara e seus arredores. Eles pescavam, cultivavam, caçavam, conheciam os ciclos das águas e mantinham caminhos próprios. A colonização, iniciada no século XVI, transformou violentamente esse mundo por meio de guerras, escravização, epidemias e deslocamentos. Muitos nomes de rios e lugares, porém, preservam raízes indígenas e lembram que a narrativa do município não começa com sesmarias ou igrejas. Ela começa com comunidades que já liam o território, navegavam suas águas e produziam conhecimento sobre a Mata Atlântica muito antes da formação das estruturas coloniais.
Depois da consolidação portuguesa na Baía de Guanabara, grandes extensões de terra foram distribuídas em sesmarias. Engenhos, fazendas, capelas e pequenos portos passaram a organizar o espaço. A mão de obra de africanos escravizados sustentou a produção agrícola e o transporte de mercadorias, deixando marcas profundas na população e na cultura da Baixada. Por trás dos registros de proprietários e autoridades, existiram milhares de trabalhadores anônimos, famílias negras, irmandades religiosas, comunidades livres e redes de resistência. Reconhecer essa presença é essencial para compreender a formação social de Duque de Caxias e a diversidade que, séculos depois, continuaria sendo uma das características do município.
Pilar e Estrela: o tempo dos portos fluviais
Entre os séculos XVII e XIX, a região ganhou importância como elo entre o Rio de Janeiro e os caminhos que seguiam para o interior. Os rios permitiam transportar pessoas, alimentos e cargas até portos situados no fundo da baía. Dali partiam trilhas e estradas em direção às áreas produtoras. O Porto da Estrela tornou-se um dos pontos mais conhecidos desse sistema. Durante o ciclo do ouro, circulavam por ele mercadorias destinadas a Minas Gerais e produtos que retornavam ao litoral. Mais tarde, com o café e outras atividades, os caminhos continuaram relevantes. Era uma economia de conexão: o território prosperava porque ligava mundos distintos.
A Igreja de Nossa Senhora do Pilar é um dos testemunhos materiais desse período. Sua origem remonta à época colonial, e o conjunto religioso acompanha a história da antiga Freguesia do Pilar. Igrejas exerciam funções que iam além da fé: ajudavam a definir povoamentos, registravam batismos, casamentos e mortes e serviam como referências na paisagem. Ao redor delas, festas, procissões e encontros criavam vínculos comunitários. Hoje, o patrimônio do Pilar permite imaginar uma Baixada em que as margens dos rios tinham centralidade e o deslocamento por barco fazia parte da vida cotidiana.
As relações de poder daquela sociedade eram profundamente desiguais. A riqueza dos engenhos e das rotas comerciais dependia do trabalho escravizado. Africanos e seus descendentes participaram de todas as etapas da economia local, do cultivo ao transporte, da construção às atividades domésticas e artesanais. Também criaram formas de solidariedade, religiosidade e resistência que atravessaram gerações. Quando se observa um vestígio colonial, portanto, é preciso enxergar tanto a arquitetura preservada quanto as vidas que raramente foram nomeadas nos documentos oficiais. O patrimônio não é apenas pedra e cal; é também memória social.
O apogeu dos portos fluviais não duraria para sempre. Assoreamento, mudanças ambientais, abertura de novas estradas e, sobretudo, a chegada das ferrovias alteraram os fluxos econômicos. Áreas antes movimentadas perderam protagonismo. Essa mudança ajuda a explicar uma característica recorrente da história caxiense: o território se reorganiza quando as redes de transporte mudam. Primeiro foram rios e portos; depois, trilhos; mais tarde, rodovias. Cada infraestrutura criou centralidades, aproximou determinados lugares e deixou outros à margem.
A ferrovia e o nascimento de uma nova centralidade
Na segunda metade do século XIX, a expansão ferroviária modificou a Baixada Fluminense. Os trilhos ofereceram uma alternativa mais rápida e regular às rotas fluviais e aos caminhos de terra. Estações tornaram-se polos de comércio e moradia. No espaço que viria a ser o centro de Duque de Caxias, a parada ferroviária conhecida como Merity — grafia usada em muitos documentos antigos — reuniu circulação, serviços e novos loteamentos. A cidade moderna começava a se desenhar ao redor do trem.
A ferrovia não resolveu automaticamente os problemas da região. A planície continuava vulnerável a enchentes, doenças associadas à falta de saneamento e dificuldades de mobilidade fora dos eixos principais. Ainda assim, o trem aproximou a localidade da capital e facilitou o deslocamento de trabalhadores. Ao longo das primeiras décadas do século XX, a população cresceu, pequenos negócios se multiplicaram e antigas propriedades rurais foram divididas em lotes. O que antes era percebido principalmente como zona de passagem passou a concentrar bairros cada vez mais populosos.
A abertura da rodovia Rio–Petrópolis, no fim da década de 1920, reforçou essa transformação. Conhecida posteriormente como parte da Avenida Governador Leonel de Moura Brizola e ligada ao eixo da Washington Luís, ela estimulou transportes rodoviários, atividades comerciais e ocupações ao longo de seu percurso. Trilhos e asfalto não se substituíram de imediato; juntos, ampliaram a ligação com o Rio de Janeiro e com a serra. Essa posição estratégica faria da região um território desejado por indústrias, depósitos, transportadoras e milhares de famílias em busca de moradia acessível perto da então capital federal.
Meriti em movimento: educação, imprensa e organização popular
Nas primeiras décadas do século XX, Meriti era um lugar de contrastes. A proximidade com o Rio de Janeiro atraía moradores, mas o poder público oferecia poucos serviços diante da velocidade do crescimento. Ruas sem infraestrutura, alagamentos e problemas sanitários conviviam com uma intensa vida comunitária. Associações, grupos religiosos, comerciantes, professores e lideranças locais defendiam melhorias e ajudavam a criar um sentimento de pertencimento. A futura cidade não surgiu apenas por decisão administrativa; ela foi preparada por pessoas que discutiam os problemas do bairro e imaginavam um destino próprio.
Um capítulo marcante dessa época foi a Escola Regional de Meriti, fundada em 1921 pela educadora Armanda Álvaro Alberto. A instituição tornou-se referência de renovação pedagógica ao aproximar ensino, saúde, alimentação, biblioteca e participação das famílias. Em uma área onde muitas crianças não tinham acesso regular à escola, sua proposta relacionava educação e vida comunitária. Conhecida como “Mate com Angu” por oferecer alimentação aos alunos, a escola simbolizou uma visão de cidadania que ultrapassava a sala de aula. Sua história conecta Duque de Caxias aos grandes debates nacionais sobre educação pública e direitos sociais.
Jornais locais e movimentos associativos também ajudaram a formar uma esfera pública. As páginas impressas registravam reclamações, campanhas e disputas políticas. Melhorias urbanas, combate a doenças, transportes e autonomia administrativa eram temas frequentes. Nem todos defendiam as mesmas soluções, e as relações entre lideranças locais e grupos políticos estaduais eram complexas. Ainda assim, essa mobilização tornou visível uma população que não aceitava ser tratada apenas como periferia distante de Nova Iguaçu, município ao qual a área pertencia.
1943: emancipação e um novo nome no mapa
A criação do município ocorreu em 31 de dezembro de 1943, durante o Estado Novo, quando o Decreto-Lei estadual nº 1.055 reorganizou a divisão territorial fluminense. O novo município foi desmembrado de Nova Iguaçu e recebeu o nome de Duque de Caxias. A instalação administrativa aconteceu no ano seguinte. É importante lembrar o contexto: o país vivia uma ditadura, prefeitos eram nomeados e decisões territoriais eram tomadas de cima para baixo. Ao mesmo tempo, a mudança respondia a um processo local de crescimento demográfico, econômico e político que vinha se acumulando havia décadas.
O nome homenageia Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, patrono do Exército Brasileiro, nascido em 1803 na Fazenda São Paulo, na região de Taquara, hoje pertencente ao território municipal. A associação entre a figura militar e o lugar foi reforçada pela mudança do nome da estação e, depois, pelo batismo do município. O personagem ocupa posição central na memória oficial brasileira, mas, como acontece com figuras do Império, sua trajetória também é objeto de debates históricos. Uma leitura madura da cidade pode reconhecer a origem do nome sem reduzir a experiência caxiense à biografia de uma única pessoa.
A emancipação criou uma prefeitura e uma Câmara próprias, mas não eliminou carências antigas. O município herdou um território extenso, ocupações dispersas e infraestrutura insuficiente. Organizar serviços, abrir vias, ampliar escolas e enfrentar enchentes eram tarefas urgentes. A autonomia permitiu formular políticas locais, embora recursos e capacidade administrativa nem sempre acompanhassem o ritmo da urbanização. Em poucos anos, Duque de Caxias deixaria de ser vista apenas como uma concentração de bairros suburbanos e se tornaria uma das principais cidades do estado.
O município passou a ser organizado em quatro distritos: Duque de Caxias, Campos Elíseos, Imbariê e Xerém. Cada um desenvolveu paisagens e dinâmicas particulares. O primeiro concentrou o centro comercial e administrativo; Campos Elíseos ganhou enorme peso industrial; Imbariê articulou bairros em expansão; Xerém preservou áreas verdes e uma relação próxima com a serra. Essa diversidade interna é decisiva. Falar em “Caxias” no singular é prático, mas a experiência cotidiana muda muito entre o centro movimentado, os eixos industriais, os bairros residenciais e as zonas próximas à Mata Atlântica.
A cidade de quem chegou e fez morada
A partir das décadas de 1940 e 1950, Duque de Caxias cresceu em velocidade extraordinária. Famílias vindas de outras partes do estado, de Minas Gerais, do Espírito Santo e, em grande número, do Nordeste, encontraram ali a possibilidade de morar perto dos empregos da metrópole. O preço dos lotes era mais acessível do que nas áreas centrais do Rio de Janeiro, e as conexões por trem, ônibus e rodovia facilitavam o deslocamento. A cidade se tornou um destino de trabalhadores que ajudariam a construir não apenas suas próprias casas, mas também a economia urbana de toda a região metropolitana.
Muitos bairros nasceram por loteamentos com infraestrutura incompleta. A autoconstrução foi uma realidade: moradores erguiam suas casas aos poucos, abriam caminhos, organizavam mutirões e reivindicavam água, iluminação, escolas, postos de saúde e transporte. Esse processo produziu vulnerabilidades que permanecem em certas áreas, mas também criou redes de vizinhança muito fortes. Igrejas, terreiros, campos de futebol, escolas de samba, associações de moradores e feiras livres funcionaram como espaços de encontro e proteção coletiva.
As migrações deixaram marcas no jeito de falar, cozinhar, festejar e empreender. Casas do Norte, restaurantes, mercados, rodas de samba, festas religiosas e tradições familiares misturaram referências de várias partes do Brasil. A identidade caxiense não é uniforme: ela foi construída por encontros, adaptações e lembranças transportadas na bagagem. Em vez de uma origem única, a cidade tem muitas origens. Sua cultura cotidiana nasce justamente da capacidade de transformar diferenças em convivência.
O comércio popular ganhou força no centro e em núcleos de bairro, atendendo uma população numerosa e conectando pequenos produtores, ambulantes, lojistas e consumidores. Com o tempo, Duque de Caxias se consolidou como polo de compras e serviços para municípios vizinhos. A movimentação das ruas, das estações e dos calçadões revela uma cidade cuja economia não depende apenas das grandes indústrias. Ela também é sustentada por milhares de pequenos negócios, trabalhadores autônomos e iniciativas familiares — o mesmo universo que, hoje, dá sentido a plataformas locais como o Baixada+.
Industrialização, Reduc e a força de Campos Elíseos
A posição geográfica de Duque de Caxias — próxima ao Rio de Janeiro, à Baía de Guanabara e a grandes eixos rodoviários — favoreceu a instalação de indústrias. O momento mais simbólico foi a implantação da Refinaria Duque de Caxias, a Reduc, inaugurada em 1961 em Campos Elíseos. A refinaria estimulou uma cadeia de empresas químicas, petroquímicas, de logística e serviços. O município ganhou relevância nacional na área de energia e passou a responder por uma parcela expressiva da economia fluminense.
A industrialização abriu empregos e elevou a arrecadação, mas seus benefícios foram distribuídos de maneira desigual. Muitos trabalhadores continuaram enfrentando longos deslocamentos e bairros com serviços insuficientes. A convivência entre instalações industriais, moradias e áreas ambientalmente frágeis também trouxe riscos. Poluição do ar e da água, acidentes, ocupação de margens de rios e necessidade de planos de emergência entraram na agenda pública. A riqueza produzida no território passou a conviver com indicadores sociais que nem sempre refletiam essa prosperidade.
Esse contraste tornou-se uma das chaves para interpretar Duque de Caxias. A cidade pode aparecer simultaneamente entre as maiores economias municipais do país e entre os lugares onde parcelas da população ainda reivindicam saneamento, mobilidade e oportunidades. Não se trata de contradição abstrata: ela é percebida no cotidiano, quando grandes complexos industriais se erguem perto de comunidades populares. Compreender a história econômica local significa perguntar não apenas quanto se produz, mas como os resultados dessa produção chegam às pessoas.
Ao redor da grande indústria, desenvolveu-se um ecossistema de transportadoras, oficinas, fornecedores, restaurantes e serviços especializados. Pequenas empresas passaram a atender trabalhadores e operações do polo industrial. A economia local tornou-se diversificada, reunindo atividades formais de grande escala e uma ampla rede de comércio e serviços. Essa combinação explica parte da resiliência caxiense, mas também torna essencial investir em qualificação profissional, segurança ambiental e novas atividades capazes de preparar o município para transições tecnológicas e energéticas.
Cultura que ocupa ruas, palcos e quintais
Duque de Caxias é frequentemente descrita por sua indústria ou por seus desafios urbanos, mas a cidade também possui uma produção cultural intensa. O samba, o carnaval, o choro, o funk, o hip-hop, o teatro, a literatura e as culturas de matriz africana encontram expressão em bairros e espaços independentes. Artistas locais transformam experiências de trabalho, migração, religiosidade e vida periférica em música, cena e palavra. A cultura não aparece como ornamento da cidade: ela é uma forma de narrar o território e disputar o direito de ser reconhecido.
A trajetória de Joãozinho da Goméia é um exemplo poderoso. Sacerdote do candomblé e artista, ele manteve em Duque de Caxias uma casa religiosa que se tornou referência no Brasil entre as décadas de 1940 e 1970. Sua presença projetou a cidade nacionalmente e enfrentou preconceitos contra as religiões de matriz africana. A memória do terreiro e de seu líder continua mobilizando pesquisadores, movimentos culturais e defensores do patrimônio. Ela lembra que preservar a história local também significa proteger lugares sagrados e narrativas negras por muito tempo marginalizadas.
Outro nome associado à cidade é o de Solano Trindade, poeta, ator, pintor e ativista da cultura negra, que viveu parte de sua trajetória em Duque de Caxias. Sua obra celebrou o povo, denunciou o racismo e defendeu uma arte ligada à vida coletiva. Ao lado de educadores, músicos, mestres populares e produtores contemporâneos, Solano ajuda a revelar uma tradição de pensamento crítico nascida fora dos centros consagrados. A cidade que trabalha também escreve, dança, filma e inventa.
O patrimônio material reúne referências de tempos distintos. A Igreja do Pilar e outras construções religiosas remetem ao período colonial; a antiga área da Escola Regional de Meriti fala sobre educação e cidadania; a Fazenda São Bernardino, em ruínas e cercada de memória, recorda ciclos econômicos e relações sociais da região; estações, fábricas e bairros operários contam a modernização. Preservar esses bens exige pesquisa, conservação e uso social. Um prédio isolado, sem história compartilhada, perde parte de seu sentido. Patrimônio vivo é aquele que a comunidade consegue conhecer, questionar e incorporar à própria identidade.
Política, direitos e participação na vida urbana
A política caxiense acompanhou as tensões nacionais do século XX. Trabalhadores organizados, sindicatos, associações de moradores, grupos religiosos e movimentos culturais participaram de campanhas por direitos. Durante a ditadura militar iniciada em 1964, lideranças e organizações sofreram vigilância e repressão, enquanto o modelo de crescimento metropolitano continuava empurrando populações de baixa renda para áreas pouco atendidas. As histórias desse período ainda são pesquisadas e ajudam a explicar tanto silêncios quanto tradições de mobilização presentes no município.
Com a redemocratização, movimentos comunitários intensificaram reivindicações por saúde, educação, moradia, transporte e saneamento. A Constituição de 1988 ampliou direitos e abriu novos canais de participação, embora a realização concreta dessas promessas permanecesse desigual. Conselhos, organizações sociais, coletivos e campanhas locais passaram a influenciar políticas públicas. A transformação urbana deixou de ser vista somente como tarefa de governos: moradores reivindicaram voz sobre orçamento, obras e prioridades.
A imprensa local, rádios comunitárias e, mais recentemente, redes digitais tiveram papel importante na circulação de informações. Elas divulgam problemas, valorizam iniciativas e ajudam a construir reputações. Ao mesmo tempo, a velocidade das redes aumenta a responsabilidade de verificar fatos e evitar estigmas. Duque de Caxias muitas vezes aparece no noticiário externo apenas quando há crise ou violência. Produzir narrativas locais mais completas é uma maneira de enfrentar essa visão limitada sem esconder os desafios reais.
Água, enchentes e o desafio ambiental
A mesma água que estruturou os caminhos coloniais está no centro dos desafios atuais. A ocupação acelerada reduziu áreas de absorção, aproximou moradias de rios e canais e pressionou sistemas de drenagem. Chuvas intensas podem causar alagamentos e deslizamentos, sobretudo onde faltam obras de prevenção, coleta de resíduos e planejamento do uso do solo. O risco não é apenas natural: ele resulta de decisões históricas sobre onde investir, quem proteger e como permitir a ocupação do território.
O saneamento continua sendo uma questão decisiva para a saúde e para a Baía de Guanabara. Esgoto sem tratamento e lixo lançados nos cursos d’água afetam bairros, ecossistemas e municípios conectados pela bacia hidrográfica. Recuperar rios exige ações integradas, porque a água atravessa fronteiras administrativas. Também depende da participação dos moradores, mas não pode ser transferido apenas a eles: infraestrutura, fiscalização e manutenção são responsabilidades públicas e coletivas.
O antigo aterro de Jardim Gramacho tornou-se símbolo internacional da relação entre consumo, desigualdade e trabalho. Durante décadas, recebeu grande parte dos resíduos da região metropolitana e sustentou a vida de catadores que recuperavam materiais recicláveis em condições duríssimas. Seu encerramento, em 2012, foi necessário do ponto de vista ambiental, mas evidenciou a urgência de garantir renda, reconhecimento e inclusão produtiva para quem trabalhava ali. Documentários e projetos artísticos levaram essa história ao mundo, porém a memória de Gramacho pertence, antes de tudo, às comunidades que viveram suas consequências.
Em Xerém e nas proximidades da serra, áreas verdes, nascentes e remanescentes de Mata Atlântica revelam outra face do município. Proteger essas paisagens é estratégico para a água, o clima e a qualidade de vida. Eventos extremos recentes mostraram como prevenção, alerta e ocupação segura são indispensáveis. O futuro ambiental de Duque de Caxias depende de conciliar indústria, moradia e conservação — tarefa difícil, mas inseparável de qualquer projeto sério de desenvolvimento.
Uma cidade metropolitana, múltipla e empreendedora
No século XXI, Duque de Caxias é uma das cidades mais populosas e economicamente relevantes do estado do Rio de Janeiro. Faz parte de uma metrópole integrada: moradores cruzam limites municipais diariamente para trabalhar, estudar, comprar e acessar serviços. Ao mesmo tempo, o município possui centralidades próprias, universidades, hospitais, polos comerciais e uma produção cultural que reduz a antiga ideia de dependência total da capital. Caxias é periferia em relação a alguns centros de decisão, mas também é centro para milhões de pessoas da Baixada.
O empreendedorismo está presente em cada bairro. Salões, mercados, oficinas, clínicas, padarias, ateliês, bares, restaurantes e negócios digitais formam uma economia próxima, baseada em confiança e recomendação. Muitos empreendimentos começaram em casa ou em pequenos pontos e cresceram com o apoio da vizinhança. Valorizar esses negócios significa manter renda circulando no território e reconhecer conhecimentos construídos na prática. A tecnologia pode ampliar essa rede, desde que não apague a relação humana que sustenta o comércio local.
As novas gerações também renovam a imagem do município. Jovens produzem audiovisual, moda, pesquisa, programação, música e projetos socioambientais. Eles se conectam ao mundo sem abandonar referências do bairro. Nas redes, mostram lugares, contam histórias familiares e questionam estereótipos. Essa produção amplia o arquivo da cidade: ao lado de documentos oficiais, fotografias de família, relatos orais, vídeos e acervos comunitários passam a registrar transformações que poderiam desaparecer.
Persistem desafios profundos. Desigualdade entre bairros, mobilidade demorada, violência, acesso irregular a serviços e impactos ambientais não podem ser romantizados. Ainda assim, reduzir Duque de Caxias a esses problemas é repetir uma injustiça histórica. A cidade é feita por pessoas que trabalham, cuidam, criam e participam. Seus resultados mais duradouros vieram da combinação entre ação pública e organização comunitária. O futuro dependerá dessa mesma capacidade de construir soluções coletivas.
Conhecer o passado para escolher o futuro
A história de Duque de Caxias não segue uma linha reta do “atraso” ao “progresso”. Cada ciclo trouxe oportunidades e custos. Os portos conectaram a região, mas foram sustentados por uma sociedade escravista. A ferrovia aproximou a capital, mas não garantiu saneamento. A industrialização gerou riqueza e empregos, mas também riscos e desigualdades. A expansão urbana ofereceu moradia a milhares de famílias, muitas vezes sem a infraestrutura necessária. Olhar para essas camadas evita tanto a celebração ingênua quanto o pessimismo que enxerga somente carências.
Preservar a memória local é uma forma de cidadania. Quando uma escola trabalha com a história do bairro, quando uma família identifica pessoas em fotografias antigas ou quando um pesquisador registra a lembrança de um trabalhador, a cidade ganha instrumentos para compreender suas escolhas. Museus, arquivos, bibliotecas e centros culturais são fundamentais, mas a memória também vive em terreiros, igrejas, associações, feiras, clubes e casas. Cada comunidade guarda uma parte de um mosaico maior.
O nome oficial homenageia um duque; a história real, porém, foi escrita por muita gente sem título. Povos originários, africanos escravizados, lavradores, barqueiros, ferroviários, operários, professoras, comerciantes, migrantes, artistas, catadores e lideranças comunitárias construíram o território em épocas diferentes. Colocá-los no centro da narrativa não apaga personagens conhecidos. Pelo contrário: torna a história mais completa, humana e próxima de quem caminha hoje pelas ruas da cidade.
Duque de Caxias segue em movimento. Assim como os rios, trilhos e rodovias mudaram seu lugar no mapa, novas redes de conhecimento, cultura e economia podem redefinir o futuro. O desafio é fazer com que desenvolvimento signifique vida melhor, ambiente protegido, memória respeitada e oportunidade compartilhada. Conhecer essa trajetória ajuda cada morador a perceber que a cidade não é um cenário pronto. Ela é uma construção coletiva — e o próximo capítulo ainda está sendo escrito.
Linha do tempo essencial
Séculos XVI–XVIII
Sesmarias, engenhos, freguesias e portos fluviais reorganizam o território indígena sob a colonização portuguesa e o trabalho escravizado.
Séculos XVIII–XIX
Pilar e Estrela integram rotas entre a Baía de Guanabara e o interior.
Segunda metade do século XIX
A ferrovia desloca centralidades e fortalece o povoado de Merity.
1921
Armanda Álvaro Alberto funda a Escola Regional de Meriti.
1928
A rodovia Rio–Petrópolis amplia a conexão rodoviária da região.
31 de dezembro de 1943
O Decreto-Lei estadual nº 1.055 cria o município de Duque de Caxias, desmembrado de Nova Iguaçu.
Décadas de 1940–1960
Migrações, loteamentos e industrialização aceleram o crescimento urbano.
1961
A Refinaria Duque de Caxias entra em operação em Campos Elíseos.
2012
O aterro de Jardim Gramacho encerra suas atividades após décadas recebendo resíduos metropolitanos.
Hoje
Quatro distritos reúnem uma cidade diversa, metropolitana, industrial, cultural e empreendedora.
Para continuar pesquisando
A história local está sempre em construção. Estas instituições e acervos ajudam a aprofundar datas, documentos, patrimônios e memórias citados na matéria.
- IBGE — Duque de Caxias: panorama e histórico
- Prefeitura de Duque de Caxias — História do município
- INEPAC — Patrimônio cultural do Estado do Rio de Janeiro
- Museu Vivo do São Bento — memória, patrimônio e educação
- Petrobras — Refinaria Duque de Caxias (Reduc)
- Biblioteca Nacional Digital — acervos e periódicos históricos
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